Sunday, April 15, 2007

Crônica 12 - Um certo mosquito, futebol e viagens



Faz 15 dias que cheguei para a temporada inicial de 2007 e só agora tive condições de me sentar para recomeçar os relatos do que já passou. Houve, não escondo, um certo desleixo com a escrita, mas estou mais motivado a relatar, devido aos amigos que de alguma maneira estão apreciando o que está sendo informado. Outras pessoas que não conhecia, de lugares diferenciados, estão mandando comentários, algumas vezes positivos! A isto agradeço ao poder da tecnologia, que disponibiliza suas ferramentas para que os amigos, antigos e novos, possam ter acesso ao que deve ser lido, sem intermediários ou desembolso. Boa parte destes agradecimentos vai para a comunidade do site de relacionamentos - Orkut - “Brasileiros em Angola” de meu amigo Álvaro Barros, que espero um dia conhecer verdadeiramente. Álvaro colocou uma indicação para o blog na apresentação da comunidade. E isto aumentou verdadeiramente a visitação na página.

Noto um acúmulo de informações que deveriam ter sido passadas e que as atividades do ano que acabou não permitiram que fossem. Percebo que muitas coisas que aconteceram já não são mais tão inusitadas quanto antigamente. Por isso achei um boa solução resumir todo o resto do ano de 2006 nesta Crônica. Espero ter este poder de síntese e mostrar toda a grandeza desta experiência nesta terra cheia de riquezas e contradições.

Após a inesquecível viagem as províncias de Kuando Kabango e Huíla (relatada na Crônica 11), ocorrida em maio de 2005, nos preparamos para o grande evento mundial que é uma Copa do Mundo. Acompanhá-lo em Angola, seria uma oportunidade impar de verificar todo o impacto deste evento em um país como este. Após os conflitos o Futebol tomava força em Angola e o país estava classificado para o Grupo D, juntamente com Portugal, México e Iran.

Mas antes de tudo começar, tive uma experiência das mais significativas e que não teve nada de gratificante. No início de junho, realizamos um trabalho noturno no Instituto de Estradas de Angola, para concluir um relatório que durou a noite toda, até o início da manhã. O resultado veio uma semana depois, ao final da tarde, com uma apatia no corpo em estado febril e dores nas articulações. Nesta noirte cheguei a meu recorde de febre – 41ºC . Todos que estavam ao meu lado acharam que o termômetro estava com defeito.
Na manhã seguinte fui fazer o “pico” (exame de sangue) na clínica Endiama – financiada pela empresa exploradora de diamantes . Depois de uma espera de 1 hora, o resultado foi o que eu já esperava. Quando um resultado positivo já seria 1xcampo, o meu deu 20xcampo, ou seja quase campo fechado. Malária na cabeça!




Distribuição da Malária no Mundo



Após uma espera de 3 tortuosas horas para a consulta médica, o médico quis ouvir a opinião de um especialista. Fui então internado por mais umas duas horas. Como já estava em Angola a quase 1 ano, o especialista achou que eu já possuia uma certa imunidade e não viu razões para me deixar no hospital, como seria de praxe para um estrangeiro com pouco tempo no país, mas me fez sair com uma receita que parecia mais um tratado médico. Havia remédio para combater a doença (um quinino mais sofisticado), havia remédio para apoiar este combate, havia remédio para o fígado que seria atingido, haviam vitaminas e haviam os anti-térmicos.

O mais difícil de tudo começaria a partir daí. Esta carga diária de remédios fazia miséria no organismo e nos três primeiros dias quase não comi, e o que comi não ficou. O enjôo era terrível e a febre constante. Esta situação continuou por três dias. Três longos dias de calafrios e jejum forçado. No quarto dia de medicação, o apetite foi se começando e os efeitos colaterais dimnuindo, juntamente com os efeitos da doença. Passei uma semana e meia sem poder trabalhar, perdendo a viagem para o Kuito e Menongue. A medicação pesada terminou no quinto dia, mas o restante continuou por uns quinze dias. Passei uma abstinência de alcoólica de 3 meses, para que o fígado pudesse se recuperar.



Ciclo de Vida da Malária



Neste meio, começa a Copa e antes, pude verificar o apego do angolano a sua seleção com o merchandasing em cima dos jogadores e do técnico. As propagandas celebravam a entrada da seleção na elite do futebol e algumas falavam em “botar a mão na taça”. O dia do embarque da seleção para a Alemanha foi espcialíssimo, com discurso presidencial e canhões de laser da ilha em direção a marginal da baía, onde havia sido o evento da despedida. Os jogadores e a comissão técnica pareciam astros de cinema e foram ovacionados por uma grande multidão esperançosa de uma boa participação no Mundial. Sair naquele dia para uma caminhada foi difícil, tal a quantidade de gente na rua. E creia, isto aqui não é muito bom, principalmente se tiver bebida no meio.

O jogo inicial seria contra o principal adversário nesta Copa. O nosso ex-colonizador Portugal. Havia grande expectativa para ele, pois desde a definição das chaves, este jogo estava sendo encarado como mais uma espécie de revanche contra o país que até pouco tempo, detinha a chave de Angola. Frases como -“podemos perder o resto da Copa, mas este jogo temos que ganhar”- ouvi de alguns. Outros mais precavidos tinham um pé atrás, exatamente pela direção “mão-de-ferro” de Filipão Scolari e por alguns jogadores da seleção portuguesa, por pertencerem aos times que eles próprios têm coração e torcem exaustivamente no campeonato português e nas Copas européias. Antes da Copa Angola fez um amistoso contra a Argentina onde perdeu de 2x0. Não fez feio, mas também não deu nenhuma esperança pra ninguém.

O Jogo do dia 11/06/06 foi ruim de parte a parte, mas aquele gol de Pauleta, logo no início do jogo e a incapacidade angolana de articular qualquer tipo de jogada que traduzisse em um ataque, fez com que os mais otimistas levassem um banho de realidade e realmente achassem que foi um grande negócio este placar. Mais pela pífia performance de Angola na partida e menos pelo desempenho de Portugal, que em sua estréia não jogou nada.

Associado a esta torcida, vinha a cobrança pelos resultados do Brasil que o povo angolano jurava que estaria na final. Como nosso selecionado não correpondeu desde o início, a cobraça aumentava. “O Brasil está a jogar muito male, quando ele vai melhorar?”. E explicávamos que na Copa era assim mesmo, havia anos que o Brasil só engrenava na reta final, mas a cobraça continuava.

O Jogo com o México, no dia 16/06/06, mostrou uma seleção angolana menos aparvalhada com o peso da estréia, contado com seus jogadores de meio, como Figueredo, conseguiu conter a forte seleção mexicana e arrancar um suado empate sem gols. Com isto o país veio abaixo e não tivemos coragem de sair para as comemorações. Soubemos de locais que a turba parou o fluxo do tráfego, sendo necessária a presença da polícia para este voltar fluir. Alguns membros da nossa equipe, que moram no condomínio Nova Vida, a 19 km de distância do centro, e têm que atravessar toda uma zona de favelas formadas pelos refugiados da guerra, sairam ao final do jogo e foram surpreendidos por uma multidão eufórica que invadiu as pistas de uma via de ligação e ameaçaram os ocupantes do carro, subindo neste com pneus, não dando condições de trafegar na Avenida. Foi preciso muita perícia e sangue frio para sair daquela situação.

E o Brasil passava pela Austrália, mas não convencia. E mais reclamações dos angolanos – “O Brasil assim não cheeega! Está muito maaale!”

No jogo do dia 21 de junho, Angola tinha uma chance de se classificar para as oitavas de final. Tinha que vencer o Iran e esperar que Portugal vencesse o México por mais de 1 gol de diferença. Neste jogo vi até onde queria chegar o técnico Oliveira Gonçalves. Angola fez seu primeiro gol em copas do mundo através de Flávio e foi um estupor para a nação. Ver a emoção das pessoas foi impressionante. Um gol para esta nação significava muita coisa. Significava que estavam ali não só para participar, mas para influir, fazer diferença e realizar sonhos. Para dizer que apesar de tanto tempo nos porões da história, bastou apenas 5 anos para que pudessem aparecer para o mundo de forma determinante. Pessoas de nosso convívio chegavam a chorar de emoção.

O que nos irritou na partida foi o medo do técnico de tentar um esquema de jogo mais aguerrido, que pudesse fazer o time conseguir subir mais um degrau nesta história. Oliveira Gonçalves pareceu que se apavorou com o gol que sua equipe conseguiu e terminou tirando suas peças chaves e colocando jogadores de marcação para garantir um jogo que estava apenas no primeiro tempo. Não deu outra, o Iran encurralou Angola, empatou e quase ganha. Era notório o alívio do técnico ao final do jogo, achando o máximo o seu feito de levar Angola ao terceiro lugar do grupo D, quando o que ficou evidente foi sua falta de coragem e sua pequenez em relação a objetivos.

O povo de Angola felizmente não concordou com minhas impressões sobre o seu técnico e a performance do seu selecionado. Todo o país foi unânime com a opinião de Oliveira Andrade e o importante foi não fazer feio no Campeonato do Mundo– Palavras do próprio Presidente José Eduardo dos Santos – no que o povo aquiesceu e saiu as ruas para aplaudir seus conterrâneos que chegavam de tão árdua batalha.

Após a saida da seleção angolana da Copa, nos restou o Brasil com sapatos altos em vez de chuteiras. E como ninguém esqueceu, é uma página a ser virada no nosso futebol. Interessante contar as reações dos angolanos em relação a nossa seleção. Todos a quem perguntava diziam que iriam torcer por nós canarinhos. Esta determinação não resistiu ao próximo jogo, nas oitavas de final. Gana era a bola da vez e o país se uniu contra nós.

Gana representava a nação africana e de forma nenhuma poderia perder o apoio dos angolanos. Eu ainda tentava convencer os mais conhecidos – “ Mas, quantos ganeses você conhece? - perguntava eu. “Nenhum” – era a resposta de todos – “ Mas temos que apoiar os africanos”. E eu pensava nos nossos laços de fraternidade com eles…os argentinos! E ficava indignado.

Passou-se Gana e vieram os franceses. Fomos ver o jogo em um clube onde os brasileiros ligados a engenharia civil iriam se encontrar. Juntos vieram angolanos trazidos por estes para torcer pelo nosso país. Desde o início da partida nenhum deles torceu. Afrontaram-nos de propósito e torceram pela França, que deu um banho na nossa seleção. Ao final do jogo nós brasileiros estávamos frustados com a seleção e revoltados com os angolanos, que continuavam a nos provocar. Então um grito uníssono e repetido de - “É penta! “ - ecoou no pavilhão do clube, abafando a galhofa dos africanos que tiveram que se render a nossa tradição e sairam do clube acompanhados por todos que gritavam na seqüência – “Sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor”. Foram reações tolas que conseguiram irritar os angolanos e limpar a alma dos verde-amarelos. Eu de minha parte não vou esquecer uma situação destas, que proporcionou um embate frontal de opiniões que nos levou a reações nacionalistas para defender a nosso orgulho. Por qualquer motivos sejam, principalmente o futebol. Aqueles momentos foram o melhor que aquela seleção pôde nos proporcionar na Copa de 2006.

Passado o Campeonato Mundial, voltamos a nossa rotina (sem rotina) de viagens. Voamos novamente para Huambo para percorrer e analisar o trecho que começaria 20 km dali. Seria a estrada EN 240, ligando as cidades de Caála e Ganda. Em Huambo a temperatura não estava tão fria como a da primeira vez no mês de setembro. Dormimos no mesmo hotel Konjevi e uma ótima notícia foi a estação dos morangos que estava no meio. Foi uma verdadeira farra de morangos. Morangos com mel, caipirinha de morango, licor e sobremesas. Nunca vi morangos tão doces e, por não terem estrutura de venda para longe, não havia valor agregado. Tudo o que se produzia era vendido na região mesmo. Desta forma foram os mais baratos que já comprei.



Os mais deliciosos Morangos !


Iniciamos os trabalhos em duas carrinhas, a primeira com nossa equipe (eu, Sidclei e Janilson), e a segunda com uma equipe da Coba, empresa consultora de Portugal, encarregada da elaboração do projeto executivo. Foi interessante a convivência com o engenherio português Paulo Jr. Ele observou a nossa metodologia de trabalho e nós a dele. Houve muita troca de informações onde ganhamos todos, inclusive quando estas informações eram trocadas nas rodadas de cerveja a noite no restaurante Imperial em Huambo.


Caála vista de cima.



Início dos trabalhos em Caála.

A região era uma repetição de adjetivos que tanto já foram usados aqui. Belezas naturais eram vistas por nossas janelas e todas as mudanças de visão poderiam virar belas fotos. Imagem de Caála. Iniciada em Caála, a 20km de Huambo, a estrada segue para oeste na direção de Benguela, ou do Oceano Atlântico. Passa por cidades que tiveram uma certa punjança antes dos conflitos.

PaisagensAngolana


Na cidade de Ucuma fôra instalada, na década de 60, uma indústria de papel que mudou a forma de ocupação da região, criando-se vilas e ocupando-se cidades. Florestas de eucalíptos e pinheiros foram plantadas. Com os conflitos a região fora ocupada por forças da UNITA e as batalhas por sua posse não permitiram que o empreendimento prosseguisse. Atualmente o que se econtram são vilas fantasmas, ou invadidas, cidades desestruturadas, e uma imensa fábrica à beira da estrada, com seus equipamentos obsoletos e inoperantes no seu interior. As florestas estão com árvores de grande porte esperando corte e o conseqüente replantio.

Florestas de eucalíptos e pinheiros.

Vilas abandonadas.

Ucuma.

Haviam 12 pontes no trecho das quais 6 foram destruídas e seus destroços encontram-se ainda na estrada como monumentos a barbárie da época. Marcações das empresas de desminagens estão nas estradas, principalmente na divisa das províncias de Huambo e Benguela. Chegando a Ganda, após ter passado pela comuna de Catumbela, onde vimos uma Igreja construída em cima da rocha, encontramos um aeródromo com inscrições das mais temerárias incicando que toda a margem da pista estava transformada em um campo minado que ainda não fora extinto. O problema era que não se divisava o limite da pista do aeroporto e da estrada, ficando difícil de saber onde estavam as minas.


Ponte do trecho.


Igreja sobre laje rochosa.

Chegamos a Ganda, e nos supreendemos que depois de toda esta Odisséia, ainda encontramos uma cidade organizadinha como ela. Incrível tudo que foi feito por Angola pelos portugueses antes da guerra. A cidade é bastante aprazível, com ruas e avenidas largas e um clima tropical de altitude, que deixava uma temperatura bastante agradável. Haviam praças enormes e as ruas eram todas arborizadas. Foi excelente a supresa para a equipe. E custa acreditar que depois de encontrar só desolação e abandono, durante o trajeto, ainda surjam cidades como Ganda, que nos leva a perguntar como subsistiram a tudo, ainda se mantendo íntegras?

Depois de tudo encontramos Ganda.

Iniciamos a nossa volta, com o trabalho concluído, às 15:30 hs, percorrendo todo o trajeto que havíamos estudando. A noite chegou quando ainda estávamos na estrada. E noite na estrada em Angola, é sinônimo de Lua e céu estrelado e só. A escuridão só não é total devido a esses dois elementos iliminado e liminosos da natureza. Todas as aldeias e comunas estão sem iluminação. Nesta viagem então nos surpreendeu uma fazenda toda clara, com a entrada principal e suas dependências totalmente iluminadas por postes com lâmpadas de mercúrio. Sabíamos que aquela luz toda era fruto de geração particular. Perguntamos de quem era a tal fazenda, que era um oásis de luz enquanto todo interior de Angola estava apagado. A resposta veio sem nenhuma emoção e foi recebida com o mesmo entusiasmo – “ É do governador da província do Huambo”.



Continua....

3 comments:

Thaís said...

Oi Fernando! Já estava sentindo falta das suas crônicas deste país fascinante. Espero que você continue empolgado em contar essas histórias, que cada vez mais aumentam a minha vontade de conhecer este país. Um grande abraço, Thaís

Moinante said...

Mais um bom momento de leitura e visionamento das fotos , espero que esteja sanada a picadela do mosquito ...
Já linkei , obrigado por ter facultado .

Lusófona said...

Oi Fernando!!
Não ligo muito para futebol, mas
essa copa foi mesmo terrível..

Malária??!! Trabalhar à noite em África... é isso aí...as mosquitinhas atacam mesmo..

Adorei as crónicas... li todas :)

Quando você vai escrever as crónicas de Recife? Já estou ansiosa...rsrs

Beijokas